Sistema Alimentar Saudável e Sustentável: Governança Global para Acelerar a Mudança
Os sistemas alimentares estão no centro de muitos desafios globais de saúde. Segundo a Comissão EAT-Lancet, a alimentação é “a alavanca mais forte para otimizar a saúde humana e a sustentabilidade ambiental na Terra”. Isso revela a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental e mostra como práticas insustentáveis colocam em risco o bem-estar das pessoas e do planeta.
Sistemas Alimentares, Saúde e Sustentabilidade
O sistema alimentar atual não consegue fornecer alimentos saudáveis em quantidade e qualidade adequadas para a população mundial. Ele gera uma carga ambiental significativa: responde por cerca de 30% das emissões globais de gases de efeito estufa e 70% do uso de água doce, enquanto o desmatamento para pecuária destrói ecossistemas e acelera a perda de biodiversidade.
Quando olhamos para os resultados em saúde humana, as práticas atuais aumentam o risco de:
- Patógenos zoonóticos
- Resistência antimicrobiana
- Alimentos contaminados
- Dietas não saudáveis
- Exposições ambientais
Tudo isso pode aumentar direta e indiretamente doenças transmissíveis e não transmissíveis.
Como vemos, os desafios do sistema alimentar são complexos, intersetoriais e urgentes. Não são apenas uma questão de saúde, mas de governança. Sem priorização na governança global em saúde, esses problemas interconectados se agravarão, afetando de forma desproporcional as populações mais vulneráveis.
Governança como Ponto de Entrada para a Transformação dos Sistemas Alimentares
À medida que reconhecemos o papel central dos sistemas alimentares, é preciso uma governança eficaz que proteja pessoas, animais e o planeta. Para isso, são necessários esforços coordenados entre países e setores, do local ao global, com os sistemas alimentares presentes na agenda de saúde e clima. Áreas-chave de ação incluem:
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Promoção da Dieta da Saúde Planetária: Proposta pela Comissão EAT-Lancet, essa dieta combina alimentos saudáveis e nutritivos para o indivíduo com o respeito aos limites do planeta. Ela prioriza alimentos de origem vegetal, como verduras, frutas, leguminosas e cereais integrais, e reduz carne vermelha, laticínios e ultraprocessados. A adoção dessa dieta pode prevenir milhões de mortes e reduzir o impacto ambiental dos sistemas alimentares. Mecanismos de governança podem apoiar essa mudança por meio de políticas que incentivem hábitos alimentares saudáveis e sustentáveis, como subsídios a alimentos locais, campanhas de educação, regulação da publicidade de ultraprocessados e rotulagem clara.
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Regulação de práticas pecuárias prejudiciais: Uso excessivo de antibióticos, condições precárias de bem-estar animal e transporte inseguro de animais vivos exigem governança global fortalecida. Acordos globais, como uma revisão do Regulamento Sanitário Internacional (RSI), podem estabelecer metas para reduzir o uso indevido de antibióticos e melhorar as condições de vida. Os governos nacionais precisam monitorar e fazer cumprir esses acordos, adaptando-os aos contextos locais.
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Pensar global, agir local: Enquanto as iniciativas globais definem a agenda, governos locais podem incentivar agricultores em pequena escala, oferecendo acesso a recursos, financiamento e capacitação. Fontes diversas de conhecimento — pesquisa, academia, comunidades tradicionais e saberes rurais — formam um pilar importante para mudanças culturalmente sensíveis. Parcerias entre atores locais e organismos internacionais são fundamentais para que o apoio chegue onde mais se precisa.
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Reforma dos “mercados úmidos” de animais vivos: Esses mercados podem ser fonte de surtos, pois a proximidade entre humanos e diversos animais domésticos e silvestres, em condições de estresse e precariedade, facilita o spillover de doenças zoonóticas. Uma abordagem de Uma Só Saúde, com ênfase em higiene, regulamentação da venda de animais vivos e fiscalização, é essencial para reduzir riscos de pandemias.
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Reconhecer os direitos da natureza e dos animais: A visão antropocêntrica que valoriza o meio ambiente e os outros animais apenas em função do benefício humano é um dos fatores centrais dos desafios que enfrentamos hoje. Reconhecer o valor intrínseco de todos os seres pode deslocar os modelos de governança de práticas exploratórias para abordagens sustentáveis e respeitosas. O reconhecimento dos direitos da natureza no Equador oferece uma base para integrar esses princípios em políticas. Perspectivas decoloniais convidam a uma governança ética, que valorize a vida em si e não apenas em termos de interesses humanos.
Um Chamado à Ação
A transformação do sistema alimentar global é um desafio urgente que exige marcos de governança integrados, alinhando saúde, sustentabilidade e ética. Não se trata apenas de reagir a crises, mas de criar sistemas que protejam pessoas, animais e planeta. A mudança nos sistemas alimentares pode não ser simples, mas é uma das formas mais poderosas de construir um futuro mais saudável e equitativo para todos.


